terça-feira, janeiro 30, 2007

Das últimas duas semanas:

Ergo-me aqui, um hoje alto, futurista.
Deste antevôo, derroto a vertigem vazia.
As gaivotas surgem, como que proclamando,
e a vitória é delas o bater das asas.
Desafio a amurada. Sorvo-a até ao fim.
O fundo da chávena são grãos de amor,
e as gaivotas mergulham, debicando.
Esta reciclagem é a higiene do sonho.
Purificaram o rio. As fábricas tiveram greves.
Os despojos da mentira foram coados primeiro.
A mágoa não cabe no balde, afoga-se pelo poço.
A água sabe a cristalina, o seixo a medicina.
Há uma enorme pureza na ilusão colectiva.

Porém, a massagem é duas -
o espelho rachou de real, e é-o por fim realmente.
Numa delas, a mão que não está está aberta,
e no seu centro a dádiva dos sentidos;
na outra, a mesma, há só nada, um punho fechado
cujos tendões dormem a vida estendida.
O passageiro estremece o comboio no sobressalto de si.
A ponte está para trás e a travessia ruiu.
Junto à bagagem ninguém lhe deita a mão.
O impulso desiste antes de um cadeado.
A chave da confiança aguarda perdida num bolso,
mas os dedos têm sono de saber em qual deles.
Rasgou-se-lhes o sorriso no arame farpado.
Saltaram a cerca e fugiram, de pontas e dôr a abanar.
Brincaram às cicatrizes cá fora, num pátio
que não era um jardim, tão pouco uma selva,
e sim uma espécie de mistério pantanoso.

Ao pegajoso passado que tanto exaspero
brado hoje um simples hurra, estaca zero,
apoiado na alma calma e ciente,
expectante apenas vagarosamente.
A plenitude de sentir está ali, à minha espera.
Sei-o das rãs que chapinham nos charcos
que por esta torpe paisagem passam barcos
capazes de atravessá-la e à quimera.
A um golpe de leme dá-se a guinada
da contemplação perante a alvorada.
As antigas braçadas tristes e inúteis
iluminam-se douradas, aladas, quase úteis
formas de ser, de estar e de abraçar
nestas palavras, sons dos pensamentos,
a minha própria forma de observar
o que exterior me apazigua sentimentos.

E até que alguém me interrompa num silêncio desigual,
a prolífica ilusão de traçar vida virtual
será um vago sorriso, emoção vaga mas real;
até que me empurrem de ameias, do môrno calor,
até que a areia ceda às ondas, à espuma de dôr,
beberei tragos altivos de paz com gotas de Amôr.